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O filme Elis é uma delícia. A sonorização, nem tanto.

  • 3 de mar. de 2018
  • 3 min de leitura

Chego do trabalho em um sexta-feira que promete pouco, sento no sofá. Sento não, me esparramo. Busco um bom filme para assistir. Passando a programação calmamente, deparo-me quase sem querer com “Elis”. Produção nacional que me gerava curiosidade. Sempre achei a voz de Elis Regina incomparável. Então a sexta seria com Elis.

Conheci pouco sobre a pessoa Elis e mais sobre o mito. Não fomos da mesma época.

Passei a ouvir música por conta própria lá pelos 15 anos, em 85. Elis morreu em 82. Ouvi Elis pelos ouvidos e preferências de meu pai e de minhas irmãs mais velhas e antenadas.

Só aos 17 anos ouvi as músicas mais modernas de Elis. E aí o encanto com a voz potente, ampla, e cheia de personalidade. Nem é preciso ter visto Elis cantando para perceber tamanha capacidade interpretativa musical.

Bem, aqui faço uma observação. Não sou crítico de cinema, apenas um escrevinhador. Minha área é música. Desta vez resolvi não passar em branco falar sobre um filme que retrata uma das maiores cantoras brasileiras, para mim, a mais emocionante voz da música brasileira.

Vamos ao filme. Resolvi analisar alguns pontos, principalmente o quesito musical.

O filme é interessante, sem ser muito fiel à biografia. Fixa-se em alguns fatos conhecidos, como o relacionamento de Elis com o compositor Ronaldo Bôscoli e, posteriormente, com o pianista Cesar Camargo Mariano. Também força um pouco a barra sobre o início de carreira de Elis, que foi mais sofrido. Compreensível a escolha. O resto é música. É Elis.

A atriz Andréia Horta (fui pesquisar seu nome) deu verdadeiro show interpretando Elis, obviamente, dublando Elis. Extremamente convincente. Domina as cenas. Encanta. Extrapola a tela. Como já afirmei, minhas referências a pessoa Elis não são tão fortes, mas Andréia Horta transmite muita força, presença e emoção em cena.

Fraco, somente o ator que interpretou Nelson Motta. Passa desapercebido, mesmo tendo bom espaço em parte do filme. Os outros atores estavam à altura da história e divertidos.

O filme abre com uma cena musical fantástica já mostrando o que vem pela frente: Elis. A voz de Elis. E esta é a parte ótima do filme: Elis cantando. Para quem gosta de alguma forma da cantora Elis, é mágico. Para quem gosta da pessoa Elis, interessante.

Achei as filmagens muito conservadoras, mas no geral não afetam o filme. Exceção à reprodução do primeiro festival no qual Elis participou. Câmera fixa, poucos recursos, plateia inerte. Só Elis convenceu.

O restante da obra altera cenas bem produzidas, e algumas com carência de recursos técnicos e criatividade. Nada que afete de morte o filme.

As músicas escolhidas são a ótima notícia. Um passeio ao universo musical de Elis. Este é o ponto alto da película para quem gosta de música. Incluindo aí as músicas de fundo entre as cenas. Jazz, Bossa Nova, MPB, Samba, Rock. A interpretação e dublagem da atriz principal convencem até o final. Emocionam.

Minha grande crítica ao filme está na sonorização. Aliás, já passou da hora do cinema nacional se dar conta que a sonorização de qualquer filme é parte fundamental da obra. Quase todos os filmes nacionais anteriores a produção Cidade de Deus, pecaram neste quesito. Alguns continuam insistindo no erro, e no filme Elis, foi o caso.

Algumas cenas apresentam temas musicais completamente fora do contexto da filmagem, e o som chega a se sobrepor na cena. Dou um exemplo claríssimo. Veja a cena em que Elis retorna de um interrogatório com a polícia militar. Plano: um fusca da polícia, Elis voltando para casa. Uma música totalmente "acima" do contexto, impondo um excesso de tensão que não existe na cena. Volume alto. Sintetizadores que lembram cenas dos Trapalhões.

E isto se repete em várias ocasiões. As transições de cenas em momentos mais emocionantes, quando a trilha original se impõe, são sofríveis. Salva-se quando entram músicas da época e não sonorização original da película.

Uma pena, quando trata o filme justamente sobre música, sobre um universo musical tão rico.

Para terminar, esta deficiência técnica não prejudica a grandeza da interpretação da atriz, aos momentos impagáveis de ver uma Elis no palco que não vi na vida real. E finalmente perceber o quanto Elis foi grande para a música brasileira e internacional.

Depois do filme, vou ouvir Elis novamente.

Por Pedro Washington Jr. Jornalista. Compositor. Escrevinhador.


 
 
 

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